Eu comecei a trabalhar com 13 anos.
Não por necessidade extrema, mas por uma espécie de circunstância feliz. Estudava de manhã, treinava vôlei à tarde — cheguei a fazer parte da seleção infantojuvenil de Florianópolis — e como as duas atividades ficavam no centro, acabava sobrando um intervalo no meio do dia. Foi assim que fui parar no Nunes Produtos Naturais, ajudando a tirar louça das mesas e servindo sucos na hora do almoço. Dois anos e meio, talvez três. Uma experiência pequena, mas que ficou.
Com 17, 18 anos, entrei de vez no mercado de trabalho. Carteira assinada, vendedor de móveis usados — numa loja que foi crescendo e se tornando de móveis novos. Fiquei por quase nove anos. Era bom no que fazia. Aprendi a ouvir as pessoas, a entender o que elas precisavam antes mesmo de elas saberem dizer.
Nesse meio tempo, tentei um curso de Tecnologia da Informação. Desisti no terceiro semestre. Não era pra mim — e a distância da faculdade também pesou. Voltei ao trabalho e fiquei um tempo só nisso.
A faísca
Num dia comum, durante o expediente, meu chefe na época puxou uma conversa sobre faculdade. No meio do papo, ele disse uma coisa que ficou:
“Você tem jeito pra advogado.”
Isso foi suficiente. Procurei uma faculdade, me matriculei e me apaixonei.
Mas logo veio uma questão que me tirava o sono: eu seria o primeiro da minha família a concluir um curso superior. Não tinha contatos no mundo jurídico, não conhecia advogados, não sabia como o sistema funcionava por dentro. E havia um risco real: terminar a faculdade e continuar sendo, no fundo, um excelente vendedor.
Eu já era um excelente vendedor. Precisava ser um bom advogado.
No terceiro semestre, tomei a decisão. Pedi demissão e fui atrás de estágio.
Trabalhando de manhã, estagiando de tarde, estudando de noite
Consegui estágio na Justiça Federal de Santa Catarina. Era o começo do que eu queria. Mas sozinho não pagaria a faculdade — que ficava a 25 quilômetros de casa e eu chegava sempre em cima do lance.
Então fiz o que era preciso: voltei a vender móveis, agora de manhã. Trabalhava pela manhã, estagiava na JFSC durante a tarde, saía correndo, pegava carona e chegava na faculdade quase sem fôlego. Depois ainda me reunia com colegas para estudar. Foram dois anos assim.
Depois veio um estágio breve, mas revelador: a mentoria de estudos a distância da UFSC. Três meses rodeado de estagiários das mais diversas áreas — engenharia, medicina, pedagogia, comunicação. Ali entendi a dimensão do que eu havia escolhido. O Direito atravessa tudo. Não existe área da vida humana que ele não toque.
O último estágio antes de me formar foi na Caixa Econômica Federal, como estagiário de uma advogada de execução fiscal. Ali eu era, na prática, o mais próximo de advogado que havia sido até então. Fui da execução fiscal para a área trabalhista e fiquei até o nono semestre.
A prova que não poderia deixar passar
No nono semestre, por impulso — ou talvez por intuição — decidi fazer a prova da OAB antes de me formar. Só para saber como era.
Passei na primeira fase. Não poderia deixar isso ir embora.
Pedi demissão do estágio, estudei muito e sozinho, fiz a segunda fase e passei.
Tirei 10 no TCC. Tinha a OAB. Faltava só a formatura.
Enquanto aguardava, voltei à Caixa — dessa vez como terceirizado, numa agência, ganhando um salário mínimo. Era o “posso ajudar?” da linha de frente. Por três meses, ajudei pessoas enquanto esperava o momento de finalmente exercer a profissão que havia escolhido.
Nenhum escritório de Florianópolis ficou sem currículo
Formado e habilitado, mandei currículo para todo escritório que eu conhecia na cidade. Estava confiante. Não aceitaria outra coisa que não fosse advocacia.
Fui chamado em quase todos. E em quase todos fui aprovado. O problema era o salário — uma vergonha na maioria deles. Mas passei por bons lugares: Bacin, Pedro de Queiroz, Pimentel. Cada um me deu um pedaço de conhecimento. E todos juntos me ensinaram algo maior: pelas minhas mãos e pelo meu raciocínio passavam vidas. Caminhos eram definidos. E o meu precisava avançar também.
Então chegou o Marcondes Brincas e Kawamura — um dos maiores escritórios de Santa Catarina. Fiquei quatro anos. Aprendi o que é processo de verdade. Me tornei mais técnico, mais rigoroso, mais estratégico.
Sempre tive um plano: cinco anos em escritórios de terceiros, depois abrir o meu.
A porta do OLX
Após uma reformulação no escritório, o momento chegou antes do previsto. E eu fui.
Comprei uma porta no OLX e instalei na sala da minha mãe.
Dias depois estava trabalhando em parceria com o Dr. Alexandre Botelho. Seis meses mais tarde, estava sozinho.
Livre para viver o extraordinário — ciente de todos os desafios que viriam pela frente, mas certo de que era isso.
Por que conto tudo isso
Porque acredito que quem contrata um advogado precisa saber com quem está falando.
Não sou alguém que foi direto da faculdade para um escritório. Passei anos vendendo, ouvindo pessoas, entendendo o que elas precisavam antes de saber dizer. Trabalhei de manhã, estagiando de tarde e estudando de noite. Fui o primeiro da família a me formar. Construí tudo isso um passo de cada vez.
Isso moldou a forma como atendo. Com atenção ao que está por trás do problema jurídico. Com clareza na comunicação. Com responsabilidade real pelo caminho que ajudo a construir.
Se você chegou até aqui, seja bem-vindo ao escritório.
Fernando Costa
Advogado — OAB/SC 33.868
Florianópolis, SC